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Uma nova Teoria Crítica
 
     
Axel Honneth, diretor do Instituto de Pesquisa Social, abre o 2º Ciclo Pensamento Alemão no Século 20 no Instituto Göethe
  
30/09/2009
      
Eduardo Fonseca
    
Quando sobrevoou São Paulo, Axel Honneth, diretor do Instituto de Pesquisa Social, berço da Escola de Frankfurt, revelou que sentiu uma emoção peculiar - aquela que nos acomete perante o contraste. Assim, ao começar sua palestra, logo disse: "É a segunda vez que estou nesta cidade. E é inimaginável que nesta terra sem contornos ainda existam espaços para a reflexão". O público ainda não sabia, mas essa observação apontava diretamente para um futuro possível da Teoria Crítica, segundo explicaria posteriormente. Pois, de acordo com o pensador alemão, é essa esperança, essa ilha ou fagulha, que insiste em existir nos lugares mais improváveis, que oferece certo otimismo para o futuro da Escola de Frankfurt, fazendo com que ela se sinta desafiada a reformular até mesmo as suas bases mais sólidas, mesmo que essa reformulação ainda se encontre absolutamente em aberto. Mas que bases são essas?
        
            
Foto: Creative Commons

Axel Honneth

     
                                                
Mesmo que ao longo do século 20 tenham surgido diversos pensamentos críticos ao capitalismo, para Honneth, a Escola de Frankfurt preservou ao longo de sua existência uma identidade teórica entre todos os seus membros. Essas bases estão visíveis, segundo afirma, em alguns pilares fundamentais que levam em conta que tudo o que é problemático no capitalismo tem sua origem numa patologia social da razão. Por trás dessa ideia, o pressuposto de que a própria realização da razão pode ter um caminho infeliz, que pode ser algo doentio, patológico.
                  
Com a autoridade de quem hoje ocupa a mesma cadeira outrora ocupada por Adorno, Horkheimer e Habermas, Honneth faz questão de mostrar aos presentes à sua palestra, que ocorreu no último dia 28, os elementos e autores que sustentaram, e ainda sustentam, uma teoria crítica muito bem tecida e robusta. Entre os autores, Marx, Weber, Lukács, Freud e Hegel. Conforme aponta o palestrante, todos os expoentes da Escola de Frankfurt beberam na teoria desses mestres. Teorias que ganharam nova abrangência de acordo com a ótica de cada filósofo. Para Horkheimer, o foco estava na questão laboral. Marcuse inclinava-se sobre a praxis estética. Já Habermas mantinha suas atenções voltadas às formas de interação racional, e Adorno tinha em vista a mimese.
   
            
Três pilares fundamentais
      
Cada qual no seu campo, mas todos tendo em vista três pilares fundamentais: (a) a ideia da razão desenvolvida historicamente; (b) o pressuposto de que o motivo para a limitação da razão se encontra nas estruturas próprias do capitalismo; (c) a constatação de que a patologia social da razão vai de encontro a uma defesa fraca, mas existente, e que esta é motivada pelo interesse do sujeito em se emancipar naturalmente.
     
O primeiro desses pilares, de acordo com o diretor do IPS, possui seu alicerce na ideia de um presente negativo. Uma negatividade que é um ataque às condições da boa vida, que cria uma condição de mal-estar cujo cerne estaria num déficit da racionalidade social. "As condições sociais são negativas", explica, "pois são unidimensionais e colonizadas por sistemas". Tal ideia foi moldada pela Escola de Frankfurt a partir de Hegel e de sua concepção abrangente de que a razão cria instituições éticas que, a cada um de seus degraus, pretende forjar um sentido para a vida.
              
Cada degrau fornece então uma via que se mostra sempre como infinita e insuperável, forjada por uma razão patológica, individualista, que suprimiu uma razão coletiva possível. Desta forma, "para podermos nos comunicar sem coerção, é necessário um compartilhamento comum que sobrepuja o homem individual". Pela ótica da Teoria Crítica, os sujeitos não se realizarão se não encontrarem algo para além deles mesmos, algo focado na auto-cooperação, "e isso é o inverso do liberalismo, onde as instâncias e o sistema isolam o homem", afirma.
     
                
Viés sociológico
    
O motivo para essa limitação da razão encontra-se mascarado na estrutura do capitalismo. E mesmo que hoje, segundo aponta Honneth, exista uma tendência de que a crítica social possa prescindir de um viés sociológico, a Escola de Frankfurt se recusa a abrir mão desse tipo de abordagem. "Pois é justamente a sociologia que contribui para desvelar os processos históricos da desrazão", comenta, acrescentando que "somente uma abordagem sociológica pode desvelar as formas produtivas irreconhecíveis". Sem o reconhecimento dessas formas, o que predomina é uma superficialidade em que a razão isolada e sem comunidade se depara com mercadorias fetichizadas.
            
Da mesma forma, transforma o outro em um objeto, em uma coisa, reificando-o. Tal movimento faz com que o homem isolado de forma sistemática não consiga desenvolver a plenitude de sua razão, sendo que razão, segundo define Honneth, é "a capacidade de se ver a si mesmo do ponto de vista do outro". Pois uma sociedade boa é aquela que se realiza de maneira cooperativa, onde cada um se reconhece no outro, tudo dentro de um espírito comum. Mas tal cooperativismo não é possível de se realizar devido à praxis capitalista. Uma praxis que prioriza a razão instrumental.
    
                    
Futuro da Teoria Crítica
      
Para Honneth, a Teoria da Ação Comunicativa de Habermas - que pressupõe uma comunicação livre, racional e crítica como alternativa à razão instrumental - soa como uma despedida de uma primeira fase da Escola de Frankfurt. Mas se tal teoria fechou um ciclo, ela deixa espaço aberto para novas possibilidades, ao abrir caminho para um futuro em que já não existe uma classe revolucionária possível. Se o homem de hoje, isolado, não se vê confortável em questionar as circunstâncias (o status quo), pois tais circunstâncias estão pouco transparentes, ele busca ainda reagir, mesmo que individualmente, a esse cenário. "O seu mal-estar", diz Honneth, "é uma expressão do déficit de nossa razão".
            
E o seu sofrimento, longe de ser proveniente de qualquer dor física ou de uma particularidade de sua vida, é proveniente da limitação de algo que sempre nos caracterizou como seres humanos. E, citando Freud, Honneth complementa: "esse sofrimento vem acompanhado de um desejo de sarar, de exercer a razão".
       
Assim, se todo esse aparato constituído encontra um sujeito diferente daquele que trabalhou nas primeiras indústrias, daquele que era comum a Karl Marx, por exemplo, um homem que ainda podia vislumbrar uma fagulha revolucionária, pois tinha contra quem lutar, diferentemente deste, o sujeito contemporâneo de hoje, foco da nova Teoria Crítica, deve ser buscado nas novas fagulhas, nos novos escapes, nas ilhas que encontramos no meio da inimaginável grande cidade. Honneth afirma que estes escapes existem. De acordo com suas próprias palavras, tais ilhas nos mostram como "é inato ao sujeito reagir contra algo que lhe está sendo alienado".
           
E essa reação vem da forma mais natural possível, sem ao menos ser prontamente perceptível. "Se levarmos em conta o pensamento de Freud, vemos sujeitos neuróticos que sofrem com a limitação de sua razão (neurose), que sofrem de um distúrbio causado pela incapacidade de seu próprio eu. Esse sujeito sofre e automaticamente procura uma análise para curar o seu mal".
       
Como principal desafio ao futuro, a Teoria Crítica deve então fazer sua própria auto-análise. "Precisamos nos observar a nós mesmos. Talvez descobriremos que temos uma carência de otimismo que nos faça temer uma nova ambição. Talvez nos falte novos conceitos-chave, como a mimese de Adorno e a comunicação de Habermas", explica o palestrante. E existe mesmo um certo grau de otimismo, "pois o sujeito tem interesse natural por sua emancipação".
        
Para finalizar as duas horas de exposição e debate, Honneth foi instado pelo professor Willi Bolle (um dos tradutores do caderno das Passagens, de Walter Benjamin) a tratar novamente do trânsito em São Paulo. "Seria esse um sinal de patologia extrema?", perguntou. Como resposta, Honneth disse: "Trata-se de uma tal patologia que nem consigo descrever. Talvez seja a expressão mais radical da ausência completa de uma consciência comum mínima. Quem deixa isso acontecer mostra o completo fracasso da razão instrumental. Infelizmente, não é só em São Paulo que isso acontece. Temos muitos outros exemplos: Nova York, Londres, Tóquio...".
     
    
O 2º Ciclo Pensamento Alemão acontecerá todas as terças a partir de 6 de outubro, às 19h, no Goethe-Institut, em São Paulo. Mais informações: Instituto Goethe

 
 
COMENTÁRIOS (2) ENVIE SEU COMENTÁRIO
01/10/2009 18:41:51   Honneth merece o destaque dado.Gostei. Valéria Cristo N. de Oliveira
30/09/2009 21:40:42   não sabia que a cult tinha versão online. muito bo maria lutterbach
 

 
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